Geraldo Vandré: life and work

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Atualizada em 12 out 2002

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CONTEÚDO

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PERFIL

 

Geraldo Pedrosa de Araújo Dias  *12/set/1935 em João Pessoa - Paraíba

Geraldo Vandré foi o primogênito do médico José Vandregísilo e de D. Maria Eugenia. Seu gênio irriquieto fez com que seu pai o internasse no Colégio São José, em Nazaré da Mata, no interior do Pernambuco, ainda criança, preocupado com sua educação. Desde cedo, já manifestava seu desejo de ser cantor de rádio, participando dos festivais de canto do colégio. Em 1951, a família se muda para o Rio de Janeiro, o que, sem dúvida, fez crescer sua intenção de participar do mundo artístico. Chegou a representar a Paraíba no Programa César de Alencar, com o nome de Carlos Dias (Carlos de seu ídolo Carlos José e Dias, seu sobrenome). Em 1955, com o pseudônimo, defendeu a canção Menina (Carlos Lyra) num concurso musical promovido pela TV-Rio. Percorria as rádios do Rio, o disco, que com o patrocinio de sua mãe, havia gravado. Nessa procissão conheceu e tornou-se amigo de Valdemar Henrique, compositor e folclorista que comandava um programa na rádio Roquette Pinto e vários artistas como Ed Lincoln, Luís Eça e Baden Powell. Quando foi prestar o vestibular para o curso de Direito, na então Universidade do Distrito Federal, já havia surgido Geraldo Vandré. Aprovado, começou a participar do movimento estudantil da época, integrando rapidamente o Centro Popular de Cultura da UNE. Foi lá que conheceu Carlos Lyra
Suas primeiras composições foram parcerias com Carlinhos Lyra: "Quem quiser encontrar o amor" e "Aruanda", que foram gravadas pelo parceiro. A primeira seria incluída no episódio "Couro de gato" do filme Cinco vezes favela, trabalho produzido pelo Centro Popular de Cultura. Após diplomar-se passou a dedicar-se de corpo e alma à música. Gravou "Samba em prelúdio" (Vinícius de Moraes/Baden Powell) com a cantora Ana Lúcia e quando parecia que sua ligação com a bossa-nova era definitiva, selada em "Pequeno Concerto que virou canção", Vandré decidiu que a música que abraçaria tinha muito mais a ver com suas raízes, e em 1963 compõe "Canção nordestina", uma toada como as que tanto ouviu na infância. A música "estreou", causando impacto num show de bossa-nova, no colégio Mackenzie.
Casa-se, pela primeira vez, em 1964, com Nilce Tranjan, que seria importante apoio no início de sua carreira. No início do ano, havia sido lançado o primeiro LP, Geraldo Vandré, que continha músicas como "Fica mal com Deus". O trabalho não tem o reconhecimento que Vandré esperava. É chamado pelo cineasta Roberto Santos, em 1965, para compor a trilha sonora de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, e o faz com maestria. É nesse ano que interpreta a composição de Chico Buarque, "Sonho de um Carnaval", no I Festival de Música Popular Brasileira da extinta TV Excelsior, conseguindo o 6º lugar. Seu 2º LP, Hora de Lutar, é desse ano. Nesse trabalho, entre outras jóias, está a canção "Ladainha", uma antevisão da criação do MST e contém a participação especial de Baden Powell.
Em 1966, participa e vence o II Festival da TV Excelsior, com uma marcha-rancho composta em parceria com Fernando Lona: "Porta-Estandarte". Essa vitória propicia a realização de uma tournée pelo Nordeste do Brasil, onde é acompanhado pelo Trio Novo, formado por Theo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira, tres dos maiores instrumentistas brasileiros de todos os tempos, a quem se agregou, no fim da tournée, Hermeto Paschoal, transformando-se em Quarteto Novo. Com Theo de Barros compõe "Disparada", 1º lugar no Festival da TV Record de 1966, empatada com A Banda de Chico Buarque. Com Tuca, compõe "O Cavaleiro" que atinge o 2º lugar no I Festival Internacional da Canção, no Rio. Finalmente, esse desempenho fez com que algumas portas fossem abertas para Vandré. Comanda, em 1967, os programas: Disparada, na TV Record, Canto Geral (depois Canto Permitido), na TV Bandeirantes e Caminhando, na TV Globo. Não consegue repetir os sucessos nos festivais desse ano. Nem "Ventania" ou "De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando", na Record, nem "Da serra, da terra e do mar", no FIC, foram classificadas.
Em 1968, o casamento de Vandré chega ao fim. Compõe "Caminhando" ("Prá não dizer que não falei das flores"), que chega ao 2º lugar no Festival da TV Globo desse ano, perdendo para Sabiá (Chico Buarque/Tom Jobim), apesar de ser a preferida do público, que a canta em uníssono no Maracanãzinho, proporcionando um dos momentos mais emocionantes da MPB.O ambiente político carregado da época ( o AI-5 estava se aproximando), tornou a música proibida e seu autor "persona non grata" pelos donos do poder. Apesar de nunca ter sido preso ou torturado fisicamente, pela ditadura militar, as limitações e pressões impostas ao seu processo de criação o levaram para o exílio no Chile. Passaria ainda pela França, Argélia, Alemanha, Austria, Grécia e Bulgária, nos 4 anos que precisou ficar fora do país. No Chile (1978) compôs a música "Desacordonar", com que venceu um concurso.
Em 1970, na França, remontou com um grupo de artistas brasileiros a Paixão segundo Cristino, na igreja de Saint-Germain des Prés, na Páscoa de 1970. Trabalhou com um novo tipo de composição, montada apenas com assobios e sons de violão, com forte ritmo nordestino. Grava com o Quinteto Violado, o LP Terras do Benvirá, que só seria lançado no Brasil em fins de 1973. Casa-se em 1971, com a socióloga Ana Clara Fabrino Batista, com quem viveria até 1974. Em julho de 1973, havia voltado ao Brasil, apesar de continuar a ser "observado de perto" pelos militares e impedido de exercer sua atividade de cantor e compositor, ficando fora da mídia até a anistia.
Foi nessa época que conhecí Vandré pessoalmente. Eu estudava medicina na Unicamp e participava do movimento estudantil como membro da diretoria do Centro Acadêmico da Faculdade, que ficava no centro de Campinas. Um dia, de imprevisto, Vandré apareceu no Centro Acadêmico. Então, perguntou para mim se poderia usar o piano que havia na sede. A surpresa, afinal ele era um mito para qualquer um que participasse dos movimentos de resistência da época, só me fez dizer que sim. Ele sentou-se ao piano e ficou horas pesquisando sonoridades. Nesse primeiro dia, não conversamos nada. Vandré voltou muitas vezes ao CA e refeito do impacto, procurei o diálogo. E, apesar dele não estar acessível no início, com o tempo se abriu um pouco. Eu me lembro de suas opiniões sobre a cultura (ele dizia que ela se manteria viva em qualquer circunstância) e sobre o tempo (dizia que cada um tinha o seu tempo e que eu não poderia deixar o meu passar). Nunca tive coragem de perguntar sobre seu passado imediato, mas acho que ele não me reponderia nada. Assim como apareceu, sem nenhum aviso ou adeus, ele deixou de ir tocar o piano do Centro Acadêmico. Não sei se ele ainda se lembra disso, mas esses contatos ficaram marcados na minha memória.
Depois da anistia, Vandré se apresentou duas vezes, em 82 e 85, no Paraguai e em 94 lançou a música "Fabiana", em homenagem à FAB. Voltou a se tornar notícia, em entrevista concedida em 1991 ao Jornal Mural da Paraíba. Em março de 1995 apresentou-se no Memorial da América Latina, em São Paulo, no concerto realizado pelo IV Comando Regional (CONAR), em comemoração à Semana da Asa. Na ocasião, um coral de cadetes cantou sua música Fabiana. Em 1996, é lançado um CD duplo, com 21 faixas, dando um apanhado geral da obra de Geraldo Vandré.
Em 2000, fazendo parte da coleção Enciclopédia Musical Brasileira, o cd de Geraldo Vandré apresenta todas as faixas de Hora de Lutar (de 1965) acrescidas de duas faixas bonus: "Disparada" (em gravação ao vivo de 1968) e "Prá não dizer que não falei das flores" (em gravação de estúdio).
Em recente entrevista ao jornal virtual CliqueMusic, Vandré revelou que pretende gravar um disco em parceria com Zé Ramalho, no Uruguai, mas, sem pressa. Depois de 30 anos, é a chance de voltarmos a apreciar o seu trabalho.


Ideologia

"Vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer."
Prá não dizer que não falei das flores - Geraldo Vandré
"Mas o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo e os sonhos que fui sonhando, as visões se clareando, as visões se clareando até que um dia acordei. Então não pude seguir valente lugar-tenente de dono de gado e gente, porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata. Mas com gente é diferente."
Disparada - Geraldo Vandré/Theo de Barros
"Eu vou levando a minha vida , enfim, cantando, que canto sim. E não cantava se não fosse assim. Levando, prá quem me ouvir, certezas e esperanças prá trocar por dores e tristezas, que bem sei, um dia ainda vão findar."
Porta-estandarte - Geraldo Vandré/Fernando Lona
"A canção, que eu trago agora, fala de toda a nação. Andei pelo mundo afora, querendo tanto encontrar um lugar prá ser contente, onde eu pudesse mudar. Mas a vida não mudaria, mudando só de lugar."
Ventania - Geraldo Vandré/Hilton Accioly

 


LINKS NA NET

Encrenca midis  - site com muitos arquivos de áudio

http://chip.cchla.ufpb.br/comuninet/vandre/vandre.html   - site com gravações raras e peça de teatro

http://www.secrel.com.br/jpoesia/gvandre.html#poemas   - site com poetas brasileiros

http://www.geocities.com/Pipeline/2530/geraldoindex.htm   - página de admirador

http://www.cefetpr.br/deptos/dacex/Selma1.htm   - tese sobre os festivais dos anos 60

http://www.scoop.com.br/   -Réquiem para Matraga, Canção nordestina e Caminhando em mp3 (imperdível)

http://www.elogica.com.br/users/agf/vandre.html   - página com entrevista, letras e discografia

http://server01.cruiser.com.br/jcsj/vandre.html   - ótimo site com muitas letras

http://www.reescrita.jor.br/PT_Vandre.htm   - artigo sobre Vandré

 

CliqueMusic  - Entrevista com Vandré, feita em 29/07/2000 - Obrigatório

 

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José Roberto Miccoli
mikkolee@uol.com.br